
É primavera, Joana! Incrível, às vezes custo a acreditar que já passou tanto tempo. Embora primavera seja a estação das flores, pássaros cantando, sol e todas essas coisas alegres, os dias aqui, desde que a primavera iniciou, são escuros, e chuvosos, muito. O cara da televisão, aquele que diz a previsão do tempo, e também os mesmos na rádio, dizem que toda a primavera vai ser assim por aqui, disseram que vai chover 20 dias diretos, só nesse mês. Não sei se acredito neles! Mas são os caras da televisão, certo? Pelo menos alguma coisa do que dizem deve ser correto.
Joana, você sabe que sempre gostei de dias nublados, e da chuva, sempre! Mas confesso que daria tudo por um dia de sol, e as pessoas nos parques, faz tempo que não posso usar a nossa toalha de piquenique igual às de filme. Uso ela sobre a mesa, só. Mas assim ela é sem graça, é só uma toalha de mesa. Acho que ela sempre foi só isso, eu que colocava magia nela quando estava contigo.
Ando sozinha, Joana. Não por que não tenho amigos, mas por que de certa forma eu mesma fiz questão de afastar todos de mim, não, não afastar, mas eu quero ficar assim, sozinha. Tenho mais tempo pra escrever pra ti. Embora eu saiba que nunca lê, mas saiba que são todos teus, as minhas palavras, minhas alegrias e sim, até as minhas tristezas.Desde que te conheci, mesmo você longe, não tenho tido tantas tristezas, arrisco até dizer que não tenho tristeza nenhuma. É estranho. É estranho por que eu me afogava dentro dos meus próprios arrependimentos, e os dias passavam nulos até que chegasse a sexta-feira para que eu pudesse sair, e beber, fumar, dormir na casa de sabe-se deus quem, e Joana, eu voltava pra casa mal. Não da bebida, nem dos cigarros, nem mesmo dos baseados, mas sim das pessoas. Elas me consumiam. E eu voltava pra casa me sentindo suja, nojenta, uma perversa, Joana, eu era uma perversa sem dono. Que asco eu sentia do meu próprio corpo!
Sonhei com você esta noite, foi tão real, e tão lindo! Você estava com um vestido colorido, brinco grande de pena em uma só orelha, na outra um pequeno, de brilhante, e Joana, seu cabelo estava solto. Aqueles lindos cachos! Não, eu sei que não combina nada com você tudo isso. Mas você estava linda. Você é sempre linda. Estávamos tão felizes no sonho, Joana, a gente sorria, muito e estávamos numa praia, um lindo céu azul, embora estivesse frio. Perfeito, certo? Tenho saudade do seu sorriso.
Ando comprando café instantâneo. Mais rápido, pratico. E não tem mais a mesma graça tomar café, sabe fazer aquele ritual que eu fazia quando você dormia comigo, onde pela manhã eu passava um café, e a casa ficava por algumas horas com aquele cheiro de café exalando pela casa. Agora faço assim, esquento a água, coloco na xícara e esta pronto. Não fica cheiro de café pela casa.
Não sou parecida com ninguém que eu conheça, Joana. Nem mesmo com você. Você me entendia, o que é diferente de ser parecida. Mas mesmo me entendendo, no final, você foi má nas palavras que jogou na minha cara. Fiquei triste. Mas não te pediria compreensão. Eu já não conseguia olhar nos seus olhos aquela tarde, e o pouco que olhei, quando vi seus olhos vermelhos, e aquela raiva toda desenhando seu corpo, tratei logo de tapar o rosto com as mãos. Não te peço perdão. Apenas lhe digo que sinto saudade, e eu sinto, mesmo.
As pessoas estão distantes de mim. Minha família, principalmente. Embora de uns dias pra cá, desde que voltei a casa deles, tenho visto certa vontade deles de me abraçarem, e falarem que sentem muito por tudo que causaram na minha vida, na nossa vida, Joana. Não sorrio pra eles. Não. A mãe disse que vai fazer um banho de ervas, que isso que eu tenho é macumba! Ora macumba, Joana. Vê se pode. Macumba contra mim. Quem seria o idiota que iria querer foder mais a minha vida?
Meus irmãos cresceram. Estão lindos. Quando entrei em casa percebi o quanto estava distante deles. Anos sem se quer ouvir a voz deles mudando. Nesse dia eu senti a dor. Eles pouco me reconheciam, de fato, Joana, mudei muito. Tenho olheiras, e a minha face está doente. Já não me olho no espelho. Mandei que tirassem todos eles do meu quarto. Até aquele grandão de corpo inteiro. Meu corpo é só um corpo. Não a beleza que todos olhavam antes. Ah, saudade. Eles me chamam pelo nome. Tenho vontade de gritar para eles e dizer “escuta aqui, eu limpei a bunda de vocês, dei banho, preparei mamadeira, e cuidei de vocês quando ninguém cuidava.” Mas não tenho força pra isso. E iria adiantar? Meu nome não foi tocado sequer uma vez aqui desde que fui embora.
Não tenho como culpá-los.
Escolho o teu sorriso antes de morrer. Um sábio que conheci pelas ruas de Porto Alegre, um velho, mas sábio, me disse que eu deveria ver um sorriso antes de morrer. Isso faria com que meu coração parasse em sincronia com o mundo e assim a minha alma seria livre, e a morte seria até bonita. Que bobagem! Ele estava bêbado. E eu também. Mas o meu final está aqui, e dei para acreditar em sábios e em bêbados. Como um prisioneiro no corredor da morte, que escolhe sua ultima refeição, eu escolho o seu sorriso.
Pode vir. Por Favor?
Imaginei coisas ontem! Efeito dos remédios, pode ser. Isso está me detonando. Mas eles me fazem viver num mundo a parte. Na verdade, acho que sempre tive essa vida dentro de mim, só nunca soube dividir. Você entrou um pouco nela, mas logo fez questão de sair. Ou fui eu quem te expulsou? Ainda não resolvemos isso. Um dia chegamos a um acordo, Joana.
Queria você aqui nessa hora, mas deixo claro nas palavras escritas pelo meu coração que eu sei que daqui a pouco passa o trem, aquele, do qual tanto falamos. Não estou com medo. Estou feliz. Espero uma viagem ótima, Joana. Já não agüento mais.
A grama é de um verde lindo, Joana. E os pássaros atingem a nota musical mais bonita, seja ela qual for, eu tenho um espaço só meu, e eu posso fazer o que quiser, Joana. Tem uma cachoeira e eu tenho uma casa de madeira. Aqui tudo é colorido, as cores são intensas. Até de rosa eu passei a gostar. Ando sempre de pés descalços, e sorrio,todos os dias, durante todas as horas. As pessoas me amam, aqui. Tenho livros por todas as partes e o café mais delicioso. Tem sol. Todos os dias. E ele me esquenta. O clima é sereno, as nuvens são brancas feito algodão, eu aqui vivo de sonhos.
É sempre primavera. Eu posso ver o seu sorriso todos os dias, Joana.
Todos os dias.
Da sempre, sempre sua...
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