quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Carta para Joana


É primavera, Joana! Incrível, às vezes custo a acreditar que já passou tanto tempo. Embora primavera seja a estação das flores, pássaros cantando, sol e todas essas coisas alegres, os dias aqui, desde que a primavera iniciou, são escuros, e chuvosos, muito. O cara da televisão, aquele que diz a previsão do tempo, e também os mesmos na rádio, dizem que toda a primavera vai ser assim por aqui, disseram que vai chover 20 dias diretos, só nesse mês. Não sei se acredito neles! Mas são os caras da televisão, certo? Pelo menos alguma coisa do que dizem deve ser correto.

Joana, você sabe que sempre gostei de dias nublados, e da chuva, sempre! Mas confesso que daria tudo por um dia de sol, e as pessoas nos parques, faz tempo que não posso usar a nossa toalha de piquenique igual às de filme. Uso ela sobre a mesa, só. Mas assim ela é sem graça, é só uma toalha de mesa. Acho que ela sempre foi só isso, eu que colocava magia nela quando estava contigo.

Ando sozinha, Joana. Não por que não tenho amigos, mas por que de certa forma eu mesma fiz questão de afastar todos de mim, não, não afastar, mas eu quero ficar assim, sozinha. Tenho mais tempo pra escrever pra ti. Embora eu saiba que nunca lê, mas saiba que são todos teus, as minhas palavras, minhas alegrias e sim, até as minhas tristezas.Desde que te conheci, mesmo você longe, não tenho tido tantas tristezas, arrisco até dizer que não tenho tristeza nenhuma. É estranho. É estranho por que eu me afogava dentro dos meus próprios arrependimentos, e os dias passavam nulos até que chegasse a sexta-feira para que eu pudesse sair, e beber, fumar, dormir na casa de sabe-se deus quem, e Joana, eu voltava pra casa mal. Não da bebida, nem dos cigarros, nem mesmo dos baseados, mas sim das pessoas. Elas me consumiam. E eu voltava pra casa me sentindo suja, nojenta, uma perversa, Joana, eu era uma perversa sem dono. Que asco eu sentia do meu próprio corpo!

Sonhei com você esta noite, foi tão real, e tão lindo! Você estava com um vestido colorido, brinco grande de pena em uma só orelha, na outra um pequeno, de brilhante, e Joana, seu cabelo estava solto. Aqueles lindos cachos! Não, eu sei que não combina nada com você tudo isso. Mas você estava linda. Você é sempre linda. Estávamos tão felizes no sonho, Joana, a gente sorria, muito e estávamos numa praia, um lindo céu azul, embora estivesse frio. Perfeito, certo? Tenho saudade do seu sorriso.

Ando comprando café instantâneo. Mais rápido, pratico. E não tem mais a mesma graça tomar café, sabe fazer aquele ritual que eu fazia quando você dormia comigo, onde pela manhã eu passava um café, e a casa ficava por algumas horas com aquele cheiro de café exalando pela casa. Agora faço assim, esquento a água, coloco na xícara e esta pronto. Não fica cheiro de café pela casa.

Não sou parecida com ninguém que eu conheça, Joana. Nem mesmo com você. Você me entendia, o que é diferente de ser parecida. Mas mesmo me entendendo, no final, você foi má nas palavras que jogou na minha cara. Fiquei triste. Mas não te pediria compreensão. Eu já não conseguia olhar nos seus olhos aquela tarde, e o pouco que olhei, quando vi seus olhos vermelhos, e aquela raiva toda desenhando seu corpo, tratei logo de tapar o rosto com as mãos. Não te peço perdão. Apenas lhe digo que sinto saudade, e eu sinto, mesmo.

As pessoas estão distantes de mim. Minha família, principalmente. Embora de uns dias pra cá, desde que voltei a casa deles, tenho visto certa vontade deles de me abraçarem, e falarem que sentem muito por tudo que causaram na minha vida, na nossa vida, Joana. Não sorrio pra eles. Não. A mãe disse que vai fazer um banho de ervas, que isso que eu tenho é macumba! Ora macumba, Joana. Vê se pode. Macumba contra mim. Quem seria o idiota que iria querer foder mais a minha vida?

Meus irmãos cresceram. Estão lindos. Quando entrei em casa percebi o quanto estava distante deles. Anos sem se quer ouvir a voz deles mudando. Nesse dia eu senti a dor. Eles pouco me reconheciam, de fato, Joana, mudei muito. Tenho olheiras, e a minha face está doente. Já não me olho no espelho. Mandei que tirassem todos eles do meu quarto. Até aquele grandão de corpo inteiro. Meu corpo é só um corpo. Não a beleza que todos olhavam antes. Ah, saudade. Eles me chamam pelo nome. Tenho vontade de gritar para eles e dizer “escuta aqui, eu limpei a bunda de vocês, dei banho, preparei mamadeira, e cuidei de vocês quando ninguém cuidava.” Mas não tenho força pra isso. E iria adiantar? Meu nome não foi tocado sequer uma vez aqui desde que fui embora.
Não tenho como culpá-los.

Escolho o teu sorriso antes de morrer. Um sábio que conheci pelas ruas de Porto Alegre, um velho, mas sábio, me disse que eu deveria ver um sorriso antes de morrer. Isso faria com que meu coração parasse em sincronia com o mundo e assim a minha alma seria livre, e a morte seria até bonita. Que bobagem! Ele estava bêbado. E eu também. Mas o meu final está aqui, e dei para acreditar em sábios e em bêbados. Como um prisioneiro no corredor da morte, que escolhe sua ultima refeição, eu escolho o seu sorriso.
Pode vir. Por Favor?

Imaginei coisas ontem! Efeito dos remédios, pode ser. Isso está me detonando. Mas eles me fazem viver num mundo a parte. Na verdade, acho que sempre tive essa vida dentro de mim, só nunca soube dividir. Você entrou um pouco nela, mas logo fez questão de sair. Ou fui eu quem te expulsou? Ainda não resolvemos isso. Um dia chegamos a um acordo, Joana.

Queria você aqui nessa hora, mas deixo claro nas palavras escritas pelo meu coração que eu sei que daqui a pouco passa o trem, aquele, do qual tanto falamos. Não estou com medo. Estou feliz. Espero uma viagem ótima, Joana. Já não agüento mais.

A grama é de um verde lindo, Joana. E os pássaros atingem a nota musical mais bonita, seja ela qual for, eu tenho um espaço só meu, e eu posso fazer o que quiser, Joana. Tem uma cachoeira e eu tenho uma casa de madeira. Aqui tudo é colorido, as cores são intensas. Até de rosa eu passei a gostar. Ando sempre de pés descalços, e sorrio,todos os dias, durante todas as horas. As pessoas me amam, aqui. Tenho livros por todas as partes e o café mais delicioso. Tem sol. Todos os dias. E ele me esquenta. O clima é sereno, as nuvens são brancas feito algodão, eu aqui vivo de sonhos.

É sempre primavera. Eu posso ver o seu sorriso todos os dias, Joana.

Todos os dias.

Da sempre, sempre sua...

Je t'aime

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Caixa mágica

Loucura! Pensou na hora em que embarcava no ônibus. Que história de amor mais distante, ouviu de um amigo, o único que ainda era amigo, ao dar o abraço de despedida. Que tudo dê certo, pense – nada é loucura quando é feito por amor. Embarcou com essa frase na cabeça, de fato nada é loucura quando é feito por amor.
É amor? Perguntavam-se todos se aquilo teria um fim, era o que eles queriam, e insistiam, isso não é amor. Alguns se afastaram, alguns riam ao vê-lo passar feliz ao telefone, de alguns, ele mesmo fez questão de se afastar, ao ouvir conselhos fajutos e lições de moral do tipo, você não tem certeza de nada nessa vida, você não sabe o que é o amor, isso não passa de uma historinha adolescente ou o pior de tudo, não levo a sério essa tua história.
De fato eles não se viam todos os dias, nem mesmo podiam passar o final de semana juntos; nas festas às vezes iam sozinhos, depois de um tempo sair já não tinha graça.
Ninguém compreendia.
A questão era que durante meses aquele sentimento foi se tornando maior do que talvez eles esperassem, ganhavam o dia só de ouvir o suspiro de um no outro lado do mundo em cada ligação, esperada, marcada. Viviam juntos, embora separados do toque sutil da mão do outro ao acordar. No telefone, por muitas vezes falavam ao mesmo tempo a mesma coisa, achavam graça, e riam da casualidade tão destinatária.
Choravam, muitas vezes, ao falar desse sentimento tão surpreso, deveriam ali aprender lidar com isso, pois tudo era novo. Tudo ali era novo!
São muitos os que foram fracos, e por medo abriram mão de uma felicidade talvez completa, talvez, por que nada é completo. Alguma coisa sempre falta.
Eles mesmos já pensaram nisso. Em largar um ao outro. Seria em vão. Encontravam numa música o tom exato do outro. E na respiração, a sintonia do outro, e prontamente ligavam-se, ao entardecer, só pra ter certeza de que o outro estava lá, de que nada havia saído do lugar.
Muitos foram os momentos de solidão, de um medo um tanto quanto estranho, da força daquilo que nem mesmo eles entendiam, mas sentiam, e isso bastava. Entender o que se sente custa caro.
Encontraram-se na rodoviária, Casablanca, ultima cena, partiu em passos lentos em direção aquele eu, o qual ele tanto esperou, em passos lentos encontraram-se, e sem notar a multidão que, abismada, cuidava a delicadeza da cena, beijaram-se.
Loucura! Indagaram ao mesmo tempo. E riram. Por fim juntos.

terça-feira, 8 de setembro de 2009

E me acalma...

Você foi meu amparo
quando no final do dia
já não restava mais alegria
dentro do meu corpo
cansado de tanta vida
não vivida
e quando me telefonava
nas noites frias
me chamando de amor
no outro lado da linha
dizendo que sem mim
já não se divertia
você foi meu amparo
quando nas minhas loucuras
do meu lado não saiu
e mesmo eu dizendo
vá embora
acabou por fazer um café
cantalorando
'eu te amo tanto',
fingindo não me ouvir.
e nos meus dias de fuga
você dava uma volta
me deixando chorar em paz
uma dor que não entendia
e ao voltar pra casa
me abraçava.
você foi meu amparo
e a minha crença
na hora em que mais ninguém
olhava para mim
seu sorriso do lado da cama
eu podia ver
segurando minhas mãos
fazendo eu ficar arrependida
de ter te trocado
por uma vida passageira
e do calor do teu abraço
minha vida ali se misturou
e me acalma
saber que mesmo louca
alguém um dia me amou.

sábado, 5 de setembro de 2009

Durante o feriado

Fagulhas de cinzas no céu da cidade.
Trancada em casa,
nem mesmo isso
conseguia em paz,
Ouviu os mortos, ainda ídolos,
E na cama sem lençol,
fumou o sem filtro,
bebeu do mais barato vinho,
durante o feriado nacional
ela viu que carentes morrem de tédio
poupou-se disso.
abriu o portão e se foi,
exalando tristeza
Quem foi que pediu licença pra morrer?

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Campanha Não Homofobia

sábado, 1 de agosto de 2009

Último filme

- Olha, me liga mais tarde que eu estou terminando de ver um filme, já vai acabar.
- Ah, ok!
- ok?
- É. Meu ônibus passa daqui a uma hora, vou pra longe e nem deus sabe quando eu volto, mas tanto faz, isso é bobagem...continua ai vendo teu filme.
- Tanto faz? Não seja assim...
- assim como?
- assim, esnobe.
- eu não fui esnobe.
- tanto faz...
- te amo.
- tanto...(silêncio)
- alô?
- não vai nesse ônibus.
- eu tenho que ir...
- Eu não tive muito tempo. eu quero te mostrar que eu te...
- olha, apenas converse comigo essa uma hora, quero ir ouvindo o som da tua voz no ônibus, ok?
- ok.
- mas, e o filme?
- tanto faz...